O bem-aventurado João de Ávila diz que “mais vale um muito obrigado, Meu Deus, na adversidade, do que mil Graças a Deus na prosperidade”, constatando que é exatamente nas provações que se avalia se estamos mesmo conformando nossa vontade à vontade d’Ele. A perfeição desta virtude consiste nesta união, tanto na prosperidade como na adversidade, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso, na saúde e na doença. Quando se trata de sucesso e prosperidade, até os pecadores sabem aceitar gostosamente as disposições de Deus, mas os santos sabem unir sua vontade aos desejos do Senhor, mesmo que contrariem seu amor próprio. Certo e de fé que nada sucede no mundo senão por permissão de Deus, entendendo isso poderemos receber com resignação cristã o que diretamente vem de Suas mãos, independente do que seja, como também é preciso receber o que vem por meio das criaturas, da maldade dos homens: desprezo, calúnias, injustiças, perseguições de toda a sorte. O Senhor nunca aprova o pecado e a manifestação de injúrias por parte das pessoas, mas se utiliza e até as permite, para delas tirar um bem maior para seus servos e amigos. O Cristão que se exercita no cumprimento desta virtude, não somente se santifica, mas gozará na terra de uma paz imperturbável, porque sabe que ”tudo concorre para o bem daqueles que O amam, daqueles que segundo seu desígnio, são eleitos”. (Rm 8,28). Diz o livro dos Provérbios: “Nenhum mal atingirá o justo, mas para os ímpios tudo serão males”(Pr 12,21).
As pessoas que se esforçam por querer o que Deus quer, são muitas vezes humilhadas, mas amam as humilhações; padecem pobreza, mas amam a pobreza, enfim, aceitam com amor o que lhes acontece e levam assim uma vida calma, tranquila e feliz. Vem o frio, vem a chuva, vem o calor, vem o vento, o bom cristão aceita tudo por Deus, porque assim Deus o quer. Jó ao receber a notícia de toda a tragédia de sua vida disse categoricamente: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor”(Jó 1,21), se ele perdeu algo, não culpou pessoas, porque sabia que nada acontece se não for da vontade do Senhor. Jó olhou com o olhar de Deus as provações e tribulações que pesou sobre ele, não como fruto do azar ou do destino, mas como sinal da vontade soberana de Deus. Santo Agostinho gostava de dizer: “Tudo o que acontece contra nossa vontade, devemos nos convencer que sucede por vontade de Deus”. Esta é a liberdade tão admirável que gozam os filhos do Altíssimo. Liberdade interior que vale mais que todos os tesouros e poderes no mundo dos homens. É aquela paz que os santos experimentaram, “paz que supera todo o entendimento”(Fl 4,7).
O homem santo permanece na sabedoria como o sol, mas o insensato muda como a lua. O pecador é como ela: hoje cheia, amanhã, minguante; hoje ri, amanhã chora de remorso, de angústia e tristeza; hoje parece tranquilo e sereno, amanhã furioso como o tigre. E por que? Porque seu contentamento depende das coisas boas ou más que lhe acontecem, e, por isso, mudam segundo sopram os ventos favoráveis ou contrários. O justo é como o sol, sempre sereno e tranquilo, porque sua paz está fundada na conformidade de sua vontade com a vontade de Deus. Podemos gozar aqui na terra de um paraíso antecipado, pois esta paz causa alegria plena, e foi exatamente o que aconteceu aos santos, independente do que passavam; é uma alegria que o mundo não compreende mas que pode e deve estar no coração daquele que tudo se conforma a Deus, e nada, nem a dor, nem a fome, nem a tribulação, haverá de tirar esta paz e impedir que se cumpra de fato a vontade de Deus em sua vida.
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Veritatis Splendor



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